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Compartilhamento de carros: fim de um caso de amor

Em número crescente, americanos e europeus deixam a velha paixão de lado e alugam os próprios automóveis para desconhecidos via web

Por quase um século, boa parte da humanidade manteve uma relação de intimidade profunda com o automóvel, que, como poucas invenções, se transformou em símbolo de status e expressão de liberdade e individualidade. O carro é mais do que um produto: induziu uma cultura, um modo de vida. Exemplificando sua influência, o historiador Brian Ladd, da Universidade Yale, autor do livro Autophobia, disse que a afeição do americanos por seus automóveis é tamanha que eles, os americanos, “organizam sua vida em torno do carro”. “Neles, os americanos vivem, relaxam, brigam, comem, se divertem e, claro, se envolvem nos mais diversos rituais de acasalamento.” Os laços entre espírito e máquina são fortes, mas é possível que estejam se afrouxando. “As gerações mais novas têm menos interesse no automóvel. Isso pode ser percebido na queda do número de pedidos de habilitação para guiar e na redução do número de donos de carros entre os jovens”, diz Sven Beiker, diretor executivo do Centro de Pesquisas Automotivas da Universidade de Stanford. De fato. Nos Estados Unidos de 1978, metade dos americanos que completava 16 anos solicitava autorização para conduzir veículos; 30 anos depois, a taxa era de apenas 30%. Outro dado, vindo da Alemanha, é ainda mais eloquente: entre 2000 e 2011, a parcela de homens que possuía veículos caiu 35%.

Há outro indício de que os laços entre homem e máquina começam a amolecer: a ascensão do compartilhamento de carro – ou car sharing. O Brasil e outra nações em desenvolvimento, como China e Rússia, onde a venda de veículos dispara, podem estranhar essa história. Mas nos Estados Unidos e em partes da Europa, é crescente o número de pessoas que não se incomoda em alugar o próprio carro a um desconhecido, prática equivalente ao sacrilégio no passado. Do outro lado do balcão, há gente que não se importa em abrir mão de um sonho antes imperativo, o de possuir um automóvel, preferindo a locação esporádica. “Compartilhar é uma ação cada vez mais aceita e, em alguns lugares, até mais apreciada do que possuir”, diz Beiker. Na visão dele e de outros especialistas, o carro entrou na roda do compartilhamento porque, aos poucos, está cedendo o lugar de objeto de desejo preferencial. Em seu lugar, apostam, aparecem o smartphone e o tablet, por exemplo. Sai Henry Ford, entra Steve Jobs. “O carro foi importante por concretizar valores caros à democracia, como a liberdade de ir e vir, além de explicitar a condição social de seu proprietário”, diz Cotten Seiler, professor da Universidade de Dickson, na Pensilvânia, e autor do livro Republic of Drivers: A Cultural History of Automobility in America. “Hoje, nenhum dos meus alunos, na faixa dos vinte e poucos anos, pensa em comprar um carro por status. Para eles, é mais importante ter um iPad ou andar de bicicleta, símbolo de juventude e consciência ambiental. Para eles, isso é ser moderno.”

A startup americana RelayRides foi a primeira companhia do mundo a viabilizar o aluguel de carro entre indivíduos. Criado em 2010 para atender a cidade de Boston, o serviço de internet foi estendido para todo o território americano há duas semanas. Pelo site, o proprietário define o preço e diz em qual horário o veículo estará disponível. Na outra ponta, 6.000 locatários (e o número continua crescendo) disputam os 200 veículos à disposição. Para Shleby Clarkentrar no circuito, carros e locatários passam por uma triagem: os veículos devem ter no máximo dez anos de uso e menos de 130.000 quilômetros; os motoristas, ficha limpa ao volante. “Tive a ideia de criar o serviço enquanto pedalava mais mais de 3 quilômetros na neve até uma loja de aluguel de carros. No caminho, via centenas de veículos parados, sempre os mesmos havia semanas”, diz Shelby Clark, fundador do RelayRides. “Pensei: como seria cômodo se pudesse alugar um deles, próximo à minha casa.” Desde a criação, a RelayRides, levantou a bolada de 13 milhões de dólares de quatro fundos de investimento, incluindo um proveniente do Google e outro da General Motors – sim, as montadoras já perceberam que é preciso unir-se ao negócio nascente. Competidores e similares também despertaram. É o caso da americana Getaound, da inglesa Whipcar, da alemã Tamyca, da australiana DriveMyCar Rentals, das francesas CityzenCar e Buzzcar.

A RelayRides abocanha 40% do valor do aluguel. O proprietário fica com o restante. Segundo estimativas do serviço, o dono de um sedan de porte médio pode faturar 250 dólares (equivalente a 432 reais) por mês se colocar seu veículo nas mãos de um estranho por 10 horas semanais. Quem se desprender mais ainda do veículo, leva mais. O assistente de fisioterapia Ken Collins, morador de San Francisco, na Califórnia, e usuário do serviço, diz ter acumulado 700 dólares mensais. “Eu me sinto bem em permitir o aluguel, pois todos saem ganhando: eu posso continuar com meu carro e outras pessoas podem usá-lo”, diz Collins, que já locou seu Honda Zen Valley exatas 101 vezes. Dores de cabeça podem ser efeitos colaterais. Nas mãos de outras pessoas, o Zen Valley já foi multado algumas vezes. “Quando isso acontece, o locatário paga a multa e eu recebo mais dinheiro, mas é desagradável ter de provar que não era eu quem guiava.” Do outro lado do balcão está o enfermeiro Chuck Stepanski. “Sempre alugo os mesmos dois carros, pois seus proprietários moram perto da minha casa”, diz. Ele garante zelar pelo bem alheio. “Sou fumante, mas nunca fumaria dentro do carro de outra pessoa.” Collins agradece.

À primeira vista, o compartilhamento é um inimigo mortal das montadoras. Mais locações de carros, menos aquisições. Menos vendas, portanto. Algumas fabricantes, contudo, preferiram entrar no jogo, com um modelo de negócio aparentado, conhecido como short-term rental. Símbolos como as alemãs Daimler e Volkswagem e a americana GM já criaram serviços de locação direta a consumidores em cidades escolhidas a dedo. A Daimler lançou em 2008 o car2go, pelo qual os automóveis podem ser locados e devolvidos em diferentes pontos da mesma cidade. O programa já está disponível em nove municípios da Europa, Estados Unidos e Canadá, com frotas que variam de 300 a 1.000 automóveis e cerca de 70.000 clientes. A Volkswagen tem projeto semelhante. “A Daimler atualmente procura maneiras de fornecer serviços para quem quer se deslocar facilmente pelas cidades – inclusive para pessoas que não querem ou não podem comprar um carro”, diz Juliane Mühling, representante da companhia alemã. No Brasil, a empresa Zazcar tem serviço parecido: oferece 60 carros espalhados por 20 bairros de São Paulo e já atende 800 clientes. O custo do aluguel: 6,90 reais por hora.

Os proprietários lucram com o car sharing. Mas essa não é a única razão do sucesso do modelo incipiente. Para donos e locatários de carros, a modalidade é uma opção de mobilidade que reduz trânsito e emissões de gases poluentes. Estudos do Conselho de Pesquisa e do Departamento de Transporte dos Estados Unidos mostram que cada carro compartilhado retira entre nove e 15 automóveis das ruas. O motivo é simples: quando as pessoas têm acesso facilitado e barato a carros, muitas desistem de adquirir o próprio. Os pesquisadores americanos visitaram 6.281 residências para analisar os hábitos dos consumidores e constataram que a adoção do compartilhamento levou a um aumento de 30% no número de residências sem carro. Entre os usuários do serviço brasileiro Zazcar, o efeito é semelhante: entre cem usuários, 24% venderam seus carros após abraçar o serviço. “Essas alternativas de mobilidade têm impacto nas nossas cidades”, afirma Sven Beiker, da Universidade de Stanford. “A ideia de que você pode usar um carro sem ser o proprietário de um reduz o consumo de combustível, a emissão de gases poluentes e o tráfego.”

Com reportagem de Renata Honorato

Fonte: Revista Veja

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