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Os urbanistas que querem devolver nosso direito à cidade

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Sofie Kvist, do Gehl Architects, pedalando em SP

Quando ainda era uma estudante de arquitetura na Aarhus School of Architecture, na Dinamarca, Sofie Kvist tinha um mural em seu dormitório. No centro, havia uma foto de Jan Gehl, que já era o urbanista mais requisitado do mundo. Hoje, aos 34 anos, Sofie é gestora de projetos do Gehl Architects e trabalha ao lado do seu ídolo. Sábado passado ela chegou a São Paulo para tocar seu primeiro projeto no Brasil.

Pedalamos juntas pela cidade o dia todo no domingo. Passamos pela Ponte Cidade Jardim no apertado e esburacado espaço dos pedestres, com vista para o poluído rio Pinheiros. Percorremos avenidas com carros em alta velocidade. Pegamos algumas subidas íngremes, em que tivemos que pedalar de pé, experimentando o ápice de nossas capacidades cardiovasculares – o que aumentou um bocado o nível de monóxido de carbono em nossos pulmões. Sofie mora em Copenhague, onde pedala por ciclovias e pontes acessíveis e nada nas águas limpas que banham a cidade. Mas não faz cara feia para o trânsito, os buracos, o rio e o ar poluídos. Parte importante do seu trabalho – que ela executa com um sorriso de quem ama o que faz – é sentir a experiência de viver na cidade. Para isso, tenta compreender como os paulistanos percebem São Paulo. Ela não carrega consigo formulários com ítens a serem assinalados com um “x” porque não acredita que a forma das cidades esteja pré-dividida entre o certo e o errado. Seu olhar não é de julgamento, mas de busca por potenciais.

Ao longo dessa semana, David Sim e Helle Søholt, também do Gehl Architects, se juntarão a Sofie. Os três foram convidados pela Secretaria de Planejamento da prefeitura para elaborar um projeto de revitalização do centro da cidade. Eles atuarão em três frentes.

A primeira é uma pesquisa do pré-projeto. Eles têm uma metodologia que envolve, por exemplo, contar pedestres em avenidas importantes. E, para levantar essas informações, envolvem estudantes de arquitetura locais. Com esses dados na mão, começarão a desenhar algumas possibilidades desse projeto para o centro da cidade.

A segunda são workshops para os profissionais que trabalham na prefeitura em áreas ligadas ao planejamento estratégico. Participei de uma dessas dinâmicas com David em março desse ano. Foi interessante ver como os principais tomadores das decisões que moldam a cidade estão presos a amarras burocráticas, impedidos de agir criativamente. Mas em vez de conversar em uma sala fechada com ar condicionado, fomos todos juntos às ruas do centro de São Paulo tentar enxergar potenciais. É nessa linha que novos workshops serão feitos agora.

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terceira é mais complexa. O Gehl Architects quer pensar em maneiras de viabilizar projetos, não só em São Paulo como em cidades por toda a América Latina. Para isso, tem aberto conversas com todos os setores que possam se interessar: bancos de desenvolvimento, empresas do mercado imobiliário, políticos, ativistas e acadêmicos. A ideia é pensar em uma rede de projetos e ideias para melhorar as cidades latinas. Os executivos do escritório entenderam que projetar, apenas, não adianta. Prova disso é que, em 2007, David fez um projeto de revitalização do Vale do Anhangabaú, em São Paulo, que até agora não saiu do papel. A iniciativa foi do pelo ITDP, um instituto com várias sedes pelo mundo que financia projetos de mobilidade com crédito de carbono. Mas esse tipo de modelo de negócio não garante que o projeto vá, de fato, acontecer. Daí a preocupação dos urbanistas em estabelecer essa rede de projetos.

Sofie, David e Helle precisam se esforçar nessas três frentes para dar conta da difícil missão que têm pela frente. Eles estão no Brasil para tentar nos ajudar a recuperar nosso direito à cidade. Nas palavras do geógrafo inglês David Harvey, “o direito à cidade é muito mais que a liberdade de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. É um direito coletivo, e não individual, já que essa transformação depende do exercício de um poder coletivo para remodelar os processos de urbanização. A liberdade de fazer e refazer nossas cidades, e a nós mesmos, é um dos nossos direitos humanos mais preciosos e, ao mesmo tempo, mais negligenciados”.

Mais sobre isso no vídeo “5 lições de Copenhague para São Paulo”, de 2011.

Fonte: Revista Super Interessante

 

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