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“Consumo colaborativo é uma transformação cultural”, diz especialista

Albert Cañigueral é autor do livro Introdução ao Consumo Colaborativo , lançado no Brasil pela editora Universo Bonito  no início deste ano, em que destrincha as razões de ser do que ele chama de uma “mudança cultural”.

Natural de Barcelona, o engenheiro abandonou uma carreira de 12 anos na área de tecnologia para se dedicar integralmente a descobrir e divulgar iniciativas que atuam dentro da lógica da sharing economy por meio do site CosumoColaborativo.com , do qual é um dos fundadores e editor-chefe.

Com extrema simpatia e o didatismo de quem deseja que mais pessoas, assim como ele, se encantem pelo tema, Cañigueral topou falar ao Empreendedores Criativos sobre passado, presente e futuro do conceito baseado em colaboração, compartilhamento e confiança.

Empreendedores Criativos – Como você classifica a economia colaborativa? É um movimento, uma tendência?

AC – É uma transformação cultural. Após a Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje, uma cultura de hiperconsumo tem sido promovida como uma opção possível para sociedades modernas. Isso criou a abundância que temos hoje, então em certa medida foi bom para o ser humano.  Mas o modelo atingiu seu limite, por isso estamos avançando em direção à economia de performance (versus a economia de produção que tínhamos até agora). Ser inteligente para utilizar tudo o que temos à nossa volta está começando a ser percebido como algo normal, portanto é uma mudança cultural na forma como as pessoas suprem suas necessidades (de produtos, serviços, etc).

Em geral, antes havia uma única opção: comprar o novo usando a moeda oficial. Com a economia e o consumo colaborativo, existe uma pletora de opções à nossa frente, todas no mesmo “patamar”. Além disso, as pessoas estão fazendo coisas – como a Wikipedia, o Linux – que os economistas consideram (ou consideravam) impossíveis (ou nonsense). Mas a prática demonstrou que este – o modelo compartilhado, aberto – é um modo muito mais eficiente de produzir.

EC – Em sua opinião, o que faz esta mudança de cultura florescer e tornar-se mais forte? E o que a torna tão necessária no atual contexto socioeconômico?

AC – Essa mudança cultural vem por meio do comportamento na internet. Acesso versuspropriedade de mídias, compartilhamento de links, imagens, arquivos, trabalhos colaborativos em projetos, jogos virtuais online, a construção de reputação em fóruns. Os jovens que estão se tornando adultos continuam fazendo o mesmo fora da internet. Se não houver alternativa a esses valores para alojamentos, dinheiro, vestimenta, transporte, eles criam sem pedir permissão a ninguém .

A ressaca de hiperconsumo – construída no crédito, que cria uma enorme dívida no fim – está ajudando pessoas a repensarem no modo como agem e no que elas esperam.

EC – Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, você afirmou que consumo colaborativo não surgiu para substituir o atual sistema econômico, mas para complementá-lo. O que isso quer dizer?

AC – Tivemos um sistema com opções bem definidas de alojamentos (hotéis, albergues), mobilidade intermediária (trens, ônibus), roupas (novas peças via grandes varejistas), mas agora as alternativas estão se expandindo porque podemos e porque isso faz mais sentido para as pessoas.

O momento incrível acontece quando a demanda do consumidor cruza com novas possibilidades permitidas pela tecnologia e amplo capital de investimento. Temos os nossos supercomputadores em rede em nossos bolsos e vamos usá-los. Então, ame ou odeie, a economia colaborativa não vai ser parada.

Temos cidadãos bem-educados, conectados e ativos que estão construindo alternativas melhores para suas necessidades. Ao mesmo tempo, pontos existentes vão  continuar (e continuarão sendo as opções do mainstream por algum tempo), mas eles terão que explicar quando e como eles são melhores do que as novas alternativas (um hotel para uma fuga romântica, por exemplo).

EC – Na mesma entrevista, você ainda afirmou que um dos desafios para o consumo colaborativo na América Latina é a perda de confiança dos países da região, por causa de suas histórias. Como o assunto tem evoluído no Brasil?

AC – Em geral, um grupo de ideias de consumo colaborativo começou a trabalhar em ambientes onde há uma comunidade existente com altos índices de confiança (empresas, universidades, associações). Por exemplo, a Djengo – sistema de caronas voltado a empresas – está operando no Brasil utilizando esse apelo. Isso é importante para semear a mudança de cultura.

Iniciativas de consumo colaborativo não exigem interação física (empréstimos P2P,crowdfunding, troca de roupas ou objetos de segunda mão pela internet) e ainda ajudam a semear a mudança cultural de confiar em estranhos.

EC– Você acredita que a confiança seja a moeda corrente de uma economia baseada em colaboração?

AC – Talvez a reputação seja a moeda corrente (ou o fator) e gerar confiança seja o resultado de ter uma boa reputação. É uma nova parte da equação, um “capacitador” que pode lhe dar acesso a opções melhores (alguns deles serão gratuitos, outros pagos com o dinheiro comum, alguns serão aceitos com moedas alternativas). Uma sociedade não funciona sem confiança. Costumavam ser corporações, organizações e governos confiáveis, mas agora estamos redistribuindo confiança entre nossos pares. Ser capaz de gerar confiança e também confiar em outras pessoas tem sido e vai ser a habilidade ainda mais crucial neste novo paradigma. A tecnologia fornece indicadores suficientes para que isso aconteça através de interações na internet.

EC – Como estudioso do tema, o que você apontaria como os principais valores que um empreendedor, uma startup ou uma empresa precisa para fazer parte da economia colaborativa?

AC – Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Negócios em plataformas são muito particulares e não são fáceis. A fase inicial (você tem a plataforma, mas não tem usuários) é a mais difícil e um monte de startups não consegue administrar para sobreviver a ela. Uma plataforma sem usuários não é muito útil.

Tente começar focando em uma comunidade de um nicho existente onde o esquema de oferta/procura pode ser facilmente cumprido. Sua plataforma não vai ser grande, mas vai ser útil, portanto seus usuários vão promovê-la (o único modo real de escalar um negócio de plataforma é com seus usuários).

Você deve amar (e conhecer muito bem) sua base de 100 a 1000 primeiros usuários e fazer coisas que não escalem com eles. Focar em entregar valor, mais do que capturar valor das interações deles.

Fonte: Empreendedores Criativos

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