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Aprenda a superar a crise existencial

Duas carasMomentos em que nos vemos com o olhar distante e perdido podem ser associados ao pensamento de um filósofo vagando entre ideias. Mas, afinal, no que estamos pensando? Em como pagar o aluguel, em declarar os sentimentos por alguém ou até mesmo questionando o que nos deixa paradas ali? Será que pode ser uma crise existencial?

As crises existenciais não têm hora, lugar ou uma razão específica para estourar. Tudo pode ser motivo para ela chegar e se apoderar dos nossos pensamentos: uma página em branco, odiar o emprego, não arranjar um namorado bacana, a aparência fora do padrão – ou tudo isso ao mesmo tempo. Essas são frustrações que podem desequilibrar qualquer pessoa. E os resultados delas podem variar entre choros parciais, constantes, depressão e, em casos extremos, até suicídio.

Desde Sócrates, o Homem pensa em maneiras de solucionar essas angústias. O ato de filosofar surgiu dessa premissa: a de observar, investigar e tentar compreender a miscelânea de sentimentos que nos formam.
Questão de evolução

Pensar e refletir a respeito de “o que é o amor” ou “o que é a morte” é uma prática que toca muita gente. A razão de nos perguntarmos é porque existe algo ali causando esse incômodo… Só que de tanto refletir, algumas verdades vieram à tona. E saber lidar com elas foi essencial para a evolução da nossa espécie.

Ao longo da História, o primeiro a contribuir foi Nicolau Copérnico, quando provou que a Terra não era o centro do sistema solar. Em seguida, Charles Darwin apresentou a Teoria da Evolução, confirmando que nossas raízes nos ligavam, quem diria, aos primatas. E, há pouco mais de um século, Sigmund Freud descobriu o inconsciente, afirmando que não somos exatamente donos do nosso nariz.

Essas três teorias acertaram em cheio o ego da sociedade, e tomou-se consciência de que tudo poderia ser motivo de dúvida. O capitalismo se aproveitou dessa insegurança e desorientação para lucrar, tirando da cartola mágica casas, carros, roupas e tudo o mais para desviar o foco das angústias. Segundo o psicanalista Cláudio Cesar Montoto, quando alguém fala que está em crise existencial, precisa descobrir qual o seu motivo. “Não há um sintoma nomeado como crise existencial, existem sim castrações de desejo no sujeito que o angustiam”, diz ele.

Por isso, muitas pessoas sentem dificuldade ao tentar definir a razão de estarem insatisfeitas com a vida. Como escreve o psicanalista J.D. Nasio no livro Um Psicanalista no Divã, os motivos parecem ser muitos mas, no fim, possuem como denominador comum os distúrbios sexuais, os conflitos familiares e os problemas sociais no trabalho. “O importante é entender que a crise existencial é a defesa do sujeito contra seu próprio desejo”, diz Montoto.

Então, podemos entender que, se homens e mulheres possuem desejos diferentes, logo, as crises também se manifestam de raízes diferentes? Mas é claro! Para Nasio. “a problemática da mulher é do querer, a problemática do homem é poder”. Assim, cria-se o conceito de que as angústias masculinas são relativas ao declínio de autoridade, da função paterna e toda virilidade investida. Ao passo que o mal-estar na mulher está mais ligado à questão do amor, do ciúme de possuir o parceiro somente para ela, medo da solidão e de ser traída.

A crise existencial nada mais é que um diálogo interno, sua autocrítica em comparação a si mesmo e ao outro. Quem é o outro? Parentes, amigos e astros de TV, por exemplo. Por isso, constantemente nos questionamos “por que não tenho uma turma de amigos como a de Friends?” ou “será que vou viver um amor como o de Brad Pitt e Angelina Jolie?”

O doutor Freud tinha uma outra forma de enxergar as crises e não acreditava na felicidade constante. Imaginava, sim, que a vida fosse cheia de altos e baixos, tudo regido pelo confronto do que ele nomeava como princípio do prazer e princípio da realidade. Quando o momento feliz passa, sempre procuramos repetir aquela sensação. Como nem sempre é possível, a angústia se instaura e, quando não bem tolerada, a crise existencial dá as caras. Contornar e sair dela exige paciência e tempo. Refletir, procurar o diálogo e compreender que cada escolha tem o lado positivo pode ser uma forma de relativizar as coisas. Aprender a dar valor a esses detalhes contribuem na tarefa de humanizar cada um de nós.

A todo momento somos bombardeados por possibilidades de sucesso, que nem sempre conseguimos abraçar. Em algum ponto, é natural cair na armadilha de se sentir incapaz. Essa constatação, na verdade, pode ser muito positiva. Ela leva a pessoa a repensar as coisas, amadurecer e buscar novas alternativas para a felicidade. Mas isso quando se está disposto a enfrentar as mudanças que podem decorrer desses questionamentos.

Encontrando o equilíbrio

A arte e a busca pelo prazer podem ser formas positivas de compreender os problemas que nos deixam pensativos. Há quem pinte quadros, componha músicas ou mesmo descarregue suas frustrações no esporte para restabelecer a ordem interna.

“As satisfações substitutivas, tal como as oferecidas pela arte, são ilusões, em contraste com a realidade; nem por isso, contudo, se revelam menos eficazes psiquicamente, graças ao papel que assumem na vida mental”, explica Freud. Woody Allen, Van Gogh, Clarice Lispector e Fernando Pessoa são alguns artistas que transferiram e sublimaram suas dores existenciais por meio da arte. Allen, por exemplo, conseguiu transferir para seus filmes suas neuroses e sentimentos e enfrentá-los de forma divertida e inteligente. No filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, a cena final mostra seu personagem dirigindo um ensaio teatral que retrata o sucesso de um relacionamento amoroso, após aquele vivido por ele ao longo do filme ter fracassado. Com o fim do diálogo, Allen se explica ao púbico: “O que você quer? É minha primeira peça. Sabe, você sempre tenta fazer tudo sair perfeito na arte, porque na vida real é mais difícil”.

Para o psicanalista Montoto, dois pontos são importantes para superar a crise. Um: saber reconhecê-la. Dois: enfrentá-la. Todo mundo passa por uma ou várias crises durante a existência. Mas a única forma de fazer com que ela deixe de dominar nossos pensamentos é descobrir e compreender o que está por trás dela. É preciso reconhecer que nossas escolhas sempre acarretam perdas, dúvidas e senões. “Todos nós temos desejos reprimidos e precisamos enfrentar sem medo a castração”, diz ele. Só assim conseguimos aceitar os deslizes da vida e perceber os questionamentos que se instauram como uma pulga atrás da orelha. Porque é assim mesmo: mal encontramos as respostas e nossa mente já trata de ir atrás de formular outras perguntas.

LIVROS
O Mal-estar na Civilização, Sigmund Freud, Imago
O Ser e o Nada, Jean-Paul Sartre, Vozes
Um Psicanalista no Divã, J.D. Nasio, Zahar

Fonte: Vida Simples

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