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O causo da terra do vento cantante

Por Sandra Vasconcelos*

Era uma vez uma cidade da Inglaterra em que soprava um vento gelado e forte. E, apesar da paisagem deslumbrante, ninguém conhecia ou visitava. Até que um dia, um prefeito lançou um desafio para artistas, designers e arquitetos: “Façam algo belo para a cidade, mas aproveitem este maldito vento!”

Entre tantas ideias recebidas, quatro esculturas foram selecionadas e construídas. E, assim, Lancashire agora chamada carinhosamente de “a terra do vento cantante“ passou a receber 35 mil turistas por mês.

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Para os criativos e otimistas, o vento não era um problema e, sim, um “ativo” — como se diz no economês. Ao perceber esta força da natureza como recurso e patrimônio, a cidade saiu do seu status invisível para se tornar um lugar desejado. A realização das obras de arte pública dinamizou toda uma cadeia produtiva na cidade, abrangendo também os serviços como a hotelaria e a gastronomia. Lancashire garantiu sustentabilidade porque de forma criativa angariou recursos, gerou empregos e recolheu mais impostos. Como em um conto de fadas, temos aqui um final feliz.

No entanto, esta história começou antes da Halo, quarta e última obra ser inaugurada, em 2007 (veja foto). As instalações são resultado de uma decisão política tomada 10 anos antes, quando o primeiro-ministro britânico Tony Blair inseriu a pauta de Economia Criativa em sua plataforma de governo, em 1997.  Mediante pesquisas e estudos, ele concluiu que eram os setores criativos que tinham o maior potencial para melhorar a Economia do país em crise. Entre 1997 e 2007 estes setores foram tratados como prioritários com uma série de políticas públicas e parcerias.

Entre mapeamentos e ações, Lancashire foi um dos pontos escolhidos para o programa “Lugares de Vida” — um plano de regeneração para cidades em que a falta de empregos era o principal problema. Desafio lançado, estes municípios receberam a missão de criarem soluções. Daí surgiu a ideia do concurso em Lancashire e, por fim, as esculturas que dinamizaram o local como atração turística. As quatro esculturas foram desenvolvidas ao longo de um período de seis anos. Fica claro que não se trata de projeto de governo, mas, sim, de planejamento estratégico e de uma política de Estado.

Cabe ressaltar que na Inglaterra, enquanto a agricultura corresponde a 0,7% do PIB, a indústria é responsável por 21,1% (2012). A Economia Criativa, tratada como estratégica para o país, já representa 8,2% do PIB (2012) e é o setor que mais cresce por lá. Por isso, não faltam exemplos para mostrar que a sustentabilidade pode estar relacionada à inovação e ao incentivo da criatividade.

Sandra Vasconcelos*

Sandra Vasconcelos é co-founder da Maximize Marketing. Formada em Jornalismo, com pós-graduação em Artes Visuais e Gastronomia (Espanha). Com o blog Babel das Artes, ganhou o Prêmio Nacional Top Blog. Foi finalista no Prêmio Brasil Criativo 2014 do Ministério da Cultura.

 

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