Bem estar

Sete coisas que eu precisava falar pro meu filho. E a história de George.

*Por Rodrigo Teixeira

No começo do próximo mês meu filho vai embarcar numa aventura de um ano. Um intercâmbio que vai levá-lo para muito longe. Longe dos meus olhos. Longe da minha atuação. Longe demais para ele ouvir meus apelos.

Ao mesmo tempo que me sinto orgulhoso da sua coragem, meu coração está cheio de medo, de insegurança. Aquela sensação de que ele pode precisar de mim, e eu não estarei lá. Por isso, resolvi colocar num texto as bases de tudo aquilo que ele pode precisar nesse momento. Para ele poder consultar se precisar. Levar no coração. Saber.

A partir de agora, o texto é endereçado ao meu filho. Mas, se quem me lê tem alguém nessa situação, fica desde já autorizado a usá-lo (desde que concorde comigo).

Esse cara. Olhe bem pra ele. Eu não o conheço. Não sei seu nome. Aqui, para criar alguma intimidade, vamos chamá-lo de George. Mas não se preocupe com George agora. Apenas olhe pra ele. Mais tarde a gente conversa sobre George.

As coisas que eu vou lhe dizer nesse texto não são construídas filosoficamente. O que quero te dizer é que elas não são fruto de uma visão estudada do mundo, de teorias provadas, de estudos recentes. Elas são só aquilo que eu aprendi vivendo minha vida. Parte delas pode não fazer sentido para a sua. Mas meu papel é tentar prever. É fazer o possível para que você não precise cair nos mesmos buracos que eu caí. Não escorregue nas mesmas cascas de banana que me levaram ao chão. Não chore pelas minhas tristezas. Vamos nós.

1. Jack Bauer

24 horas fez muito sucesso na televisão, num tempo antes da Netflix existir. Era uma série de ação que acontecia em tempo real. 24 episódios para 24 horas. A grande característica da série é que seu personagem principal, vivido por Kiefer Sutherland, era colocado em frente a enormes dilemas morais, e tinha poucos segundos para decidir o que fazer.

Eu espero que você não seja posto em situação semelhante. Espero que você sempre tenha mais que alguns segundos para tomar suas decisões. Mas muitas vezes, é justamente em questão de instantes que a gente se ferra. É naquela hora de responder “sim” ou “não” para uma oportunidade. E acredite, esses momentos sempre serão capciosos. Você não terá dúvidas sobre comprar sorvete de chocolate ou pistache. Mas é crucial saber se vai ou não entrar naquele carro. Se vai ou não participar daquela festa. Se vai ou não se inscrever naquele curso. Se vai ou não acreditar no que está sendo dito para você.

Não há uma forma infalível de tomar decisões. O que existe, sim, é uma forma de se arrepender menos delas. A máxima atual diz “jogue-se, é sua vida, só se vive uma vez”. Lembre-se que ela foi cunhada numa época de grandes restrições de liberdades. O problema do mundo, hoje, é bem o contrário. Todo mundo quer demais seus direitos, e vai deixando suas obrigações caírem pelo caminho, sob o pretexto de “viver o hoje”.

De qualquer forma, o modo mais simples de tomar decisões é conhecendo a fundo seus princípios. É como um sentido de aranha: quando algo lhe é estranho, quando a oferta, ainda que tentadora, for contra algum dos seus valores internos, ela vai soar como um sino no fundo do seu cérebro.

Lembre-se. Certo ou errado, você foi criado com valores. Valores e princípios tem uma característica estranha. Quando você os quebra, dá muito trabalho remendá-los. Isso quando não ficam lá, quebrados para sempre. Cada valor despedaçado é um passo na direção do arrependimento. E torna mais fácil repetir aquele erro no futuro.

2. Sobre portas e passagens

Até hoje, nós abrimos as portas para você. Escolhemos por quais você iria passar. Entramos antes para ver se o clima estava certo lá dentro. A partir deste ano, tudo muda.

Você vai se ver constantemente na iminência de novas portas. Elas são passagens para outras realidades. Oportunidades para outros caminhos. E são, também, grandes chances de ferrar totalmente.

Todas elas guardam promessas. Mas várias vão te deixar na mão. O que você realmente precisa saber sobre elas é que as mais valiosas são mais difíceis de abrir. Quase nunca se apresentará em sua vida uma porta realmente digna, sem que para passar por ela, você não precise de uma chave.

Essas chaves virão na forma de compromissos. De trabalho, de dedicação. De muito estudo, tentando saber qual é exatamente a forma de melhor abri-las. Portas muito fáceis de serem abertas geralmente não significam nada. Ou pior, estão cheias de armadilhas atrás delas.

Desconfie das portas fáceis. Lute pelas difíceis.

3. Caminho de volta

Se tudo der certo, você vai muito longe na sua vida.

Nesse momento, você irá mais longe do que eu jamais fui na minha.

Caminhar em frente é essencial, e ninguém consegue encontrar os melhores caminhos olhando constantemente no retrovisor.

Mas se tudo falhar, é bom que você saiba que tem um lugar quentinho te esperando. Por isso, busque seus caminhos, dê suas voltas, cometa seus erros. Mas enquanto faz isso, deixe uma linha esticada do seu ponto de partida. É pra lá que você volta se precisar de repensar seu caminho. Se precisar de desenhar um novo mapa. Ou só de um abraço mesmo.

E seu ponto de partida, meu filho, somos nós, seus pais. Sua casa. Sua origem. Com todos os nossos erros, exageros e excessos, esse é ainda é o amor mais genuíno que você tem na sua vida.

4. Esse tal de amor

Longe de mim querer colocar rédeas na sua maneira de conhecer o amor. Esse amor, do tipo de causa calafrios na espinha, boca seca e te faz desenhar coraçõeszinhos no caderno, acontece sem tempo, sem lógica, sem data marcada. Pelo menos, era para ser assim.

O que eu queria te dizer é do outro amor. Que é tão diferente deste primeiro, que pra falar a verdade, nem deveria ter o mesmo nome.

O amor que te faz renunciar. Que te faz proteger. Que te obriga a tirar a roupa do seu corpo para esquentar o objeto amado. O amor que não tem limite, não tem fronteira, não tem bastante. O amor que se dedica a um filho.

Até agora você não sabe bem o que é isso. Você é alvo e vítima dele, mas de tão inundado você está, que muitas vezes ele te sufoca. Você não o divisa, porque o tem em profusão. E você nunca o entenderá exatamente o que ele é até que o seu próprio filho nasça.

Mas não é fácil ficar longe desse amor. Ainda que a gente sobreviva fora dele, é como sair do útero pela segunda vez. Tudo pode parecer mais inóspito, mais frio e mais cruel. Mas precisa, filho. Precisa, porque dentro desse líquido, a pele da gente fica sensível demais. Nossos sentidos ficam meio malucos. Nossa bússola de julgamento fica sem norte.

E porque finalmente, você vai começar a realizar o que é exatamente esse amor. E ainda que eu saiba muito pouco, uma das minhas certezas é que desvendar esse mistério é um dos sentidos da vida.

5. Sobre nós

E quando eu digo nós, não estou me referindo a eu e você. É sobre os laços e voltas nas cordas da vida. Eles existem, e lidar com eles toma grande parte do nosso tempo no planeta.

Parece que carregamos atrás da gente uma corda invisível, sem fim. Cada movimento da vida gera um embaraço com as cordas dos outros que em um momento ou outro dançam conosco nesse caminho.

Algumas das voltas dadas nessa corda são fracas e soltas. E quando cada um corre de volta para seus caminhos, os laços se desfazem sozinhos, sem que a gente nem perceba. Relações mais profundas geram nós mais difíceis, alguns insolúveis. E a cada movimento dentro desta relação, mais nós, uns sobre os outros, vão aparecendo. E cada vez vai ficando mais difícil se desvencilhar deles.

Não tem como evitar os nós. Eles simplesmente acontecem. Mas eu suspeito que não valha a pena ficar orbitando em torno de quem não merece seu tempo, porque quando você quiser, não vai conseguir manter distância segura deles. Vai estar enredado em uma rede impossível de relações.

Cuidado com esses nós. Eles podem formar uma rede salva vidas, ou uma armadilha. E o pior é que foi tecida por você mesmo.

6. Força

Muito se fala sobre as pessoas que tem sorte. Que conseguem muito, com muito pouco. Eu não saberia te dizer nada sobre isso. Tudo que tenho veio através de esforço, e muito.

Desconfie de qualquer solução mágica. Eu já vivi um pouco, e nenhuma delas funciona. Nada que venha de forma fácil cria valor.

Por outro lado, quando se percebe que algo vale a pena, não existe maior satisfação do que a de dedicar sua força, seu esforço à ela. Seja uma iniciativa pessoal, seja uma causa social, é somente através da ação que se muda uma realidade.

Só não confunda. Força é aplicada para remover um obstáculo. Para quebrar uma resistência. Para caminhar a milha extra. Para subir o metro faltante. Força é não desistir. É perseverar.

Força não deve ser usada contra ninguém. É aí que ela muda de nome, e passa a se chamar violência. E essa nunca vai te levar a nada.

Jamais esqueça. A força não está no tamanho dos seus músculos. Está no tamanho da sua vontade.

7. Sorria, você está vivendo

Em nosso caminho da infância à vida adulta, tem muita coisa que a gente aprende. E uma, em particular, que a gente desaprende. Sorrir.

Enquanto a vida vai deixando marcas no rosto da gente, vamos encontrando um ângulo que nos valorize nas fotos de perfil. Vamos guardando os sorrisos para datas especiais. Vamos abraçando a sisudez como forma de seriedade. Vamos nos jogando voluntariamente no abismo da tristeza, e ainda achamos que estamos certos.

Quanto a isso, não aprenda nada de mim. Meus sorrisos já se tornaram ralos, secos, premeditados. Não perca seu sorriso. Faça o possível e o impossível para conservá-lo em alguma parte da alma. É ele que vai te levar mais longe na vida. Foi o seu sorriso que me deu combustível para seguir em alguns dos momentos mais difíceis da minha. Sucumbir à essa tristeza programada é vender à alma em prestações.

8. George, seu doido

Como eu já disse, eu não sei a história de George. Mas posso imaginar.

No começo do século 20, George sentia que ele tinha uma missão. Que viver com os pés do chão não era exatamente para ele. Que ele tinha algo pra oferecer pro mundo, e de quebra, iria mudar totalmente sua própria vida.

Munido tantas verdades e paixões, George se debruçou em alguma garagem, desenhou, planejou e construiu sua máquina voadora. Os amigos provavelmente riram dele, apontaram o quanto aquele troço o deixava parecido com uma galinha esquizofrênica, e que ninguém no mundo jamais seria maluco de entrar em uma máquina que se afastasse mais de três metros do chão.

George não ligou pra eles. E no dia da foto se postou de frente ao abismo, convicto de que cumpriria o chamado de seu destino.

Deste momento em diante, tudo é mistério. Se George pulou do morro e planou graciosamente até pousar como uma águia entre seus amigos incrédulos, ou se arremeteu rumo ao chão como um torpedo sem cauda, pouco importa. O que importa é que os erros e acertos de George serviram para pavimentar uma história que, eventualmente, levou Santos Dumont e os Irmãos Wright até aquilo que hoje chamamos de avião.

Todo sucesso tem seu porque. Todo fracasso também.

Esse é você hoje, filho. Você já sentou, planejou, estudou, desenhou e construiu. Está no topo do seu monte, esperando o vento certo pra se lançar rumo ao desconhecido. Muita coisa pode dar certo. Muita coisa pode dar errado. Mas não é hora de repensar. É hora de confiar em si próprio, e no seu planejamento.

Aconteça o que acontecer, seus pais sempre estarão na torcida, pelo melhor.

Nós te amamos de uma forma que vai demorar muito para você entender. Te desejamos mais que glórias, mais que sucessos, mais que acertos.

Nós te desejamos a plenitude da vida.

Fonte: Trendr

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